COMUNICAÇÃO

VOZES POP RUA – Crescente número de pessoas em situação de rua leva Seas a realizar mais de 110 mil abordagens nos últimos meses

08/10/2020 15:17 | Por Tunísia Cores - DRT/BA 5496 | Foto: Ascom Sempre

Coordenadora do Serviço Especializado em Abordagem Social traz um panorama das iniciativas do Seas voltadas para a população em situação de rua

O número crescente de pessoas em situação de rua no país demanda atenção ainda mais específica para este segmento da população. É com esse olhar, que a entrevistada da série Vozes Pop Rua, Caroline de Almeida, destaca a atuação do Serviço Especializado em Abordagem Social, que nos últimos seis meses intensificou os trabalhos voltados para essa população e realizou mais de 110 mil abordagens só na Bahia.

Graduada em Serviço Social e pós-graduada em Assistência Integral à Saúde com ênfase no Programa de Saúde da Família, Caroline Grace Cordeiro de Almeida é coordenadora do Serviço Especializado em Abordagem Social – Seas, iniciativa que integra um conjunto de ações da Diretoria de Proteção Social Especial da Secretaria Municipal de Promoção Social e Combate à Pobreza – Sempre, de Salvador.

A assistente social integrou por dois anos a equipe técnica de uma Unidade de Acolhimento Institucional para a população em situação de rua do sexo masculino, onde conheceu mais sobre as demandas, as formas de garantir direitos violados e a buscar a inserção destas pessoas na sociedade.

Nesta entrevista, Caroline de Almeida destaca que as atuações do Seas envolvem a resolução das demandas imediatas das pessoas em situação de rua, bem como a inserção do indivíduo na rede de serviços socioassistenciais. Neste período de pandemia também foram realizados encaminhamentos e cadastros no benefício eventual do auxílio-moradia em bairros que passaram por medidas restritivas; além de iniciativas de alimentação, higienização, abrigamento, entre outras.

 

O que é o Serviço Especializado em Abordagem Social e quais atividades tem desenvolvido antes e durante a pandemia na rua?

De acordo com a Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais, o Serviço Especializado em Abordagem Social – Seas faz parte do conjunto de ações da Diretoria de Proteção Social Especial da Secretaria Municipal de Promoção Social e Combate à Pobreza – Sempre, de Salvador. O Seas atua na resolução de necessidades imediatas, promovendo a inserção na rede de serviços socioassistenciais através de encaminhamentos e das demais políticas públicas na perspectiva da garantia dos direitos. Busca identificar famílias e indivíduos em situação de risco pessoal e social em espaços públicos, como situações de trabalho infantil, exploração sexual de crianças e adolescentes, situação de rua, uso abusivo de crack e outras drogas. Dessa forma, o público-alvo abrange crianças, adolescentes, jovens, adultos, idosos e famílias que utilizam espaços públicos como forma de moradia e/ou sobrevivência.

Durante a pandemia, as ações do Serviço Especializado em Abordagem Social – Seas foram intensificadas para identificar famílias e/ou indivíduos em situação de risco social com direitos violados, além de promover o acesso à rede de proteção, serviços e benefícios socioassistenciais. Desde o início da pandemia, já foram feitas mais 116.459 abordagens.

O Seas atuou também nos bairros em que tiveram medidas restritivas, realizando encaminhamentos e cadastros no benefício eventual do auxílio-moradia. Antes, existiam 12 Unidades de Acolhimentos Institucionais em Salvador, cada uma com capacidade para 50 pessoas, totalizando 600 vagas. Foram criadas mais 777 vagas para a população em situação de rua em Salvador, totalizando 1.377 vagas. As unidades estão localizadas na Liberdade, Roma, Boca do Rio, Alto de Coutos, Amaralina, Cajazeiras e Ipitanga.

Até o momento foram 2.744 acolhimentos para população em situação de rua. Há a distribuição diária de 4.000 refeições para pessoas em vulnerabilidade social, entre almoços e lanches, nos cinco pontos gratuitos de distribuição espalhados na cidade, localizados nos bairros de Itapuã, Pau da Lima, Barris, São Tomé de Paripe e Barroquinha, com horário de funcionamento das 11h às 13h. No total, desde o início da pandemia, já foram distribuídas 549.945 refeições.

Além da entrega da alimentação, o centro localizado nos Barris, no estacionamento São Raimundo, conta com um contêiner que dispõe de sete boxes de banheiros, instalados com chuveiros, pias e vasos sanitários. Há também uma lavanderia pública, com capacidade para lavar 15 quilos de roupas e atender uma média de 50 pessoas por dia. Já o ponto de distribuição da Barroquinha também conta com banheiros direcionados às pessoas em situação de rua.

Foi implantado ainda o Centro Pop Djalma Dutra, totalizando quatro unidades em funcionamento, com instalação de uma sala de espera em cada uma das unidades. Há espaços para banho e fornecimento de itens de higiene, além de entrega de refeições diárias. Ao todo, já são mais de 46.758 atendimentos nos Centros Pop.

 

Como sua trajetória de vida a levou a fazer parte da equipe e qual seu papel neste momento?

A minha trajetória teve início quando fui convidada a fazer parte da equipe técnica de uma Unidade de Acolhimento Institucional para população em situação de rua do sexo masculino. Atuei durante dois anos e tive a oportunidade de ampliar meu conhecimento sobre este público, que requer do profissional uma postura ética, crítica e propositiva para buscar o rompimento dos estigmas inerentes à pessoa em situação de rua. Há também a busca pela garantia dos direitos violados, bem como a inserção/reinserção social desta parcela da população. Neste momento, atuo na Coordenação do Seas, trajetória que iniciei em 2020.

 

O que mudou no território em que atua e como você avalia os impactos destas mudanças para a população de rua?

Houve o aumento significativo do número de pessoas em situação de rua em decorrência do desemprego, conflitos familiares, ausência de recursos financeiros e intensificação do uso de substâncias psicoativas. E, como consequência dos impactos dessas mudanças, os assistidos buscaram o atendimento, sendo as solicitações demandadas realizadas por eles pelo medo do contágio do vírus e suas consequências.

 

Há um relato ou situação mais marcante no seu trabalho na rua nesse contexto de Pandemia que você possa compartilhar?

O encontro da senhora Milena*, 21 anos, e a sua genitora, a senhora Marina*, como gosta de ser chamada, 54 anos.

A senhora Marina* estava em situação de vulnerabilidade e risco social. Há aproximadamente 20 anos perambulava pelas ruas da capital baiana, vista com mais frequência nas imediações dos Galés e entorno. Através de articulação com a rede de garantia de direitos, foi possível localizar a senhora Milena* e, após contato telefônico, foi informada sobre a atual situação da sua genitora e demonstrou interesse em realizar os devidos cuidados. Na oportunidade, foram criadas estratégias para realizar o encontro da família e o retorno à sua cidade de origem (Santa Cruz de Cabrália), intervenção realizada com êxito.

 

Quais as suas expectativas e perspectivas para um novo normal no futuro e pós pandemia?

A primeira perspectiva é a permanência do acesso aos serviços de forma mais facilitada. Por exemplo: para a segunda via da identidade é necessária a certidão de nascimento e ir até o Serviço de Atendimento ao Cidadão – SAC. Neste momento, está ocorrendo a reimpressão deste documento. Importante ressaltar que geralmente a população em situação de rua não dispõe de documentação pessoal. E foi percebido que a Covid-19 sensibilizou e mobilizou a população brasileira a olhar o outro no sentido das necessidades mais básicas. Houve vários mutirões para arrecadar alimentos, materiais de limpeza/higiene pessoal e roupas para o compartilhamento destes com as pessoas que mais precisam ou foram afetadas com a pandemia.

 

*Nomes Fictícios

 

Confira outras entrevistas da série Vozes Pop Rua

VOZES POP RUA: “a pandemia escancarou um problema social que existe há tempos e não há alternativa para a saída das ruas”, diz Laercio Santos

VOZES POR RUA – Das ruas à coordenação nacional do movimento que luta pela garantia de direitos da população em situação de rua

 

Produção: Tunísia Cores e Jész Ipólito
Produção Gráfica: Antonio Félix
Edição e revisão: Arthur Franco e Vanda Amorim