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GE Pop Rua sobre branquitude e trabalho com populações vulneráveis destaca a racialização como questão fundamental nos atendimentos de saúde

| Por: Tunísia Cores - DRT/BA 5496

Palestrante do encontro, Joyce Lopes também abordou questionamentos da sociedade sobre o papel do branco na luta antirracista

De que forma as relações raciais da sociedade são observadas nos atendimentos de saúde voltados para pessoas em situação de rua ou em situação de vulnerabilidade? Como os profissionais lidam com esses públicos? Por que é importante refletir sobre a racialização e a branquitude em tais atividades? Essas foram algumas das questões lançadas durante mais um encontro GE Pop Rua da Defensoria Pública do Estado da Bahia – DPE/BA. O evento aconteceu na quinta-feira, 22, via Google Meet, e reuniu quase 80 pessoas para tratar sobre “Branquitude e o trabalho com populações vulneráveis”.

Mediado pela defensora pública Eva Rodrigues, coordenadora da Especializada de Direitos Humanos da DPE/BA, o GE Pop Rua teve como palestrante a assistente social Joyce Souza Lopes, mestra e doutoranda em Antropologia, que guiou as reflexões. A palestrante apresentou parte da sua pesquisa de mestrado sobre a possibilidade de antirracismo da branquitude, a partir da escuta a sujeitos brancos e negros, e também trouxe questionamentos feitos pela sociedade, de forma cada vez mais frequente, sobre o papel do branco na luta antirracista.

“Muitos brancos estão esperando aparecer o mestre dos magos para dizer qual o é o caminho a seguir e o que é preciso fazer. É preciso ter em mente que não existe um passo a passo: trata-se de um processo de olhar para si, refletir sobre o mundo e se perceber em uma relação de tentativa e erro, que inclusive pode ser apontada e criticada pelas pessoas negras. É se colocar em um lugar de vulnerabilidade psicológica que as pessoas brancas não querem estar, no sentido de dizer que não sabem para onde ir, de não ter ideia de por onde começar. Mas é urgente que se comece, mesmo com medo, mesmo sabendo que será tolhido ou não por pessoas negras”, alertou a palestrante.

Para pensar sobre a racialização e a branquitude nos atendimentos voltados para pessoas em situação de rua ou de vulnerabilidade, foram apresentados três sujeitos: os profissionais de saúde, pessoas brancas em sua maioria, especialmente em profissões consideradas hierarquicamente superiores; o sujeito que é atendido, majoritariamente pessoas negras, historicamente vulnerabilizadas no Brasil; e a sociedade em geral.

Aos profissionais que pertencem à branquitude, Joyce Lopes destaca que é preciso dar um passo a frente, no sentido de tensionar questões que são equivocadas, porém já naturalizadas no cotidiano. Além disso, reflete sobre a influência da racialização inclusive nos atendimentos prestados a pessoas brancas e negras que estão em uma mesma situação. Neste ponto, resgata conceitos e ideias apresentados pela doutora em Psicologia, Lia Vainer, em sua tese de doutorado intitulada “Entre o ‘encardido’, o ‘branco’ e o ‘branquíssimo’: Raça, hierarquia e poder na construção da branquitude paulistana”.

“A pessoa branca em vulnerabilização tem o aval e o impulso da sociedade para que saia dessa condição. Uma pessoa usuária de drogas recebe comoção muito maior se for branca, pois a sociedade reproduz o discurso de que aquele lugar não é para alguém branco. E há uma série de reproduções, inclusive de equipes profissionais, tão naturalizadas que mesmo as pessoas mais críticas não fizeram ainda essa reflexão. Por que a criança branca ‘encardida’ [termo usado em referência a Lia Vainer] é a mais afagada? Por que recebe mais atenção da equipe profissional? Por que é a criança que recebe mais comoção das pessoas que circulam nesses espaços? São os padrões de branquitude que estão determinando essas ações”, questiona.

Outras questões interraciais trazidas por Joyce Lopes tratam da identificação do sujeito que é atendido, ou seja, pessoa em situação de vulnerabilidade, com profissionais negros – identificação gerada por questões fenotípicas. A palestrante alerta, no entanto, que “há um processo psicológico das relações sociais como um todo em que, na maioria das vezes, os profissionais negros precisam demarcar que de fato são profissionais qualificados para serem respeitados, ultrapassar a barreira da interpessoalidade. Por outro lado, um profissional branco chega no local já reconhecido como profissional qualificado”.

Pacto narcísico

Joyce Lopes também fala aos profissionais que pertencem à branquitude que é preciso colocar os “óculos da racialização”, no sentido de romper com o pacto narcísico – a ideia de que sujeitos brancos não são racializados e que se reproduz por meio de discursos como “somos todos humanos”, ou ainda por meio do uso de relações de parentesco ou amizade com pessoas negras. Estes são subterfúgios utilizados para negar suas identidades raciais.

“O primeiro passo é se perceber como um sujeito racializado nesse lugar de branquitude, como uma pessoa branca, e de privilégios psíquicos, psicológicos, materiais, que têm o privilegio do acesso. É um privilegio de existência: elas têm o direito à vida e de viver com dignidade. E esse privilégio é o que tem sido negado às pessoas negras. Percebemos isso, por exemplo, quando pautamos discussões sobre genocídio e extermínio da população negra”, alerta.

Resgatado durante o GE Pop Rua, o conceito de pacto narcísico da branquitude faz referência à doutora em Psicologia e atual diretora-executiva do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades, Cida Bento. Joyce explica que diz respeito aos sujeitos brancos não se reconhecerem como tal. “Essa não identificação está relacionada à concepção de sujeito humano genérico, como se os brancos fossem o protótipo de ser humano, um sujeito puro, e por isso não se permitem ser racializados, mas nesse processo o povo negro e o movimento negro não aceitam de forma passiva”, finaliza.

A palestrante trouxe referências ao jornalista Hamilton Cardoso, que se debruçou sobre a branquitude brasileira; à intelectual, professora e antropóloga brasileira, Lélia Gonzalez; além do escritor, professor universitário e ativista dos direitos civis e humanos das populações negras brasileiro, Adbias do Nascimento. Este último, em seu livro intitulado O Quilombismo, versou sobre o I Congresso do Negro Brasileiro (1950) e sobre a proposta apresentada por Fernando Góis a respeito da criação de um congresso internacional para estudar os brancos europeus e seu prolongamento no Brasil, além de abordar o histórico de violência que a Europa exerceu no mundo todo e muito fortemente em relação ao continente africano.

Igualdade Racial

A defensora pública Eva Rodrigues destacou iniciativas da DPE/BA para lidar com as questões raciais. Entre elas a criação do Grupo de Trabalho pela Igualdade Racial, que no próximo mês completa um ano de atividades e caminha rumo à criação de um núcleo de equidade racial; a realização do primeiro concurso público com reserva de vagas para pretos e pardos, lançado em 2016. Outra questão é I Censo da Defensoria Pública da Bahia, que visa conhecer as pessoas que trabalham na instituição e está disponível para respostas até o dia 30 de outubro.

“Todos somos racistas ou já tivemos atitudes racistas. O Censo foi dividido em etapas e neste primeiro momento questões que tratam sobre raça/racismo foram incluídas, a fim de que a Instituição possa conhecer melhor seus integrantes e o que pensam/entendem sobre racismo, racismo estrutural, racismo institucional”, afirmou a coordenadora da Especializada de Direitos Humanos Eva Rodrigues. O encontro também apresentou um histórico do GE Pop Rua por meio da assistente social Sandra Carvalho.